Diocese de Novo Hamburgo

Quaresma e os vícios capitais

- PE. RAMIRO MINCATO – PÁROCO DO FIÃO

Quaresma, por quê?

            A palavra quaresma, de um simples adjetivo latino, no início de uma frase, passou a denominar todo um período do ano litúrgico. A frase latina Quadragésima die Christus pro nobis tradétur, (daqui a 40 dias (no quadragésimo dia) Cristo será entregue por nós, para a nossa salvação), indicava o período de tempo (quadragésimo dia) que faltava para a Paixão.

 

            Quaresma, portanto, é o período de preparação para a Páscoa, a mais importante festa do calendário litúrgico cristão.  Começa na quarta-feira de cinzas e termina na quarta-feira da Semana Santa. Período dedicado ao crescimento pessoal, ao seguimento de Cristo e ao confronto entre o que somos e vivemos e o que o Evangelho nos propõe. Trata-se de um tempo especial para aprofundar a compreensão da Palavra de Deus e intensificar as práticas da fé. 

            A Campanha da Fraternidade, a cada ano, vem ao encontro desses objetivos, ou seja, oferece oportunidades concretas para o confronto com o Evangelho, em vista de uma melhor vivência da caridade cristã. A CF propõe um aspecto ou dimensão da vida pessoal, social e comunitária para, a partir dali, desenvolver e aprofundar a fraternidade, conforme o mandamento cristão: “amar o próximo como Jesus nos amou”. Exercita-se, assim, de modo concreto, o espírito quaresmal por meio da meditação, oração, jejum e a esmola (caridade que liberta).

Políticas públicas

            Muitos poderão perguntar-se: por que a Igreja propõe temas ligados à política e a sociedade? Não deveria dedicar-se a temas espirituais, à liturgia, à vida pessoal e transcendental? Por que falar de políticas públicas e promoção humana?

            Como prolegômenos de resposta a estas questões que sempre mais aparecem, não podemos ignorar que o grande promotor do ser humano é Deus. Ele cria a carne, assume a carne, ressuscita a carne e transfigura a carne. Deus, na história da salvação, é o primeiro promotor do ser humano. Falar de promoção humana é falar de Deus. O antigo tratado teológico sobre a criação e a graça trazia como título Deo Creante et Elevante. Esta disciplina, hoje, corresponde ao tratado de Antropologia Teológica. Já o título trás dois particípios ativos que resumem toda ação de Deus: criar e elevar. Depois do pecado Deus eleva o homem pela encarnação do seu Filho. E pela vida, paixão, morte e ressurreição de Jesus, eleva a vida do ser humano. Esta é a maior promoção humana jamais vista. Jesus assume a carne humana para salvá-la, como nos recorda Santo Irineu: “o que não foi assumido, não pode ser redimido” (ORBE, Antonio. El hombre ideal en la teología de s. Ireneo. Gregorianum, Roma, v. 43, n. 3, p. 449-491, 1962). A promoção humana, portanto, é uma dimensão intrínseca do Evangelho, e a CF nos desafia para a vivência concreta do Evangelho.

Pecado e Conversão

            A chave da Quaresma é a “conversão”. Se o ser humano decaiu pelo pecado, necessita agora do perdão e da salvação.  O confronto com a Palavra de Deus, abre-lhe a possibilidade de mudança e oferece-lhe os meios para libertar-se, de acordo com o Evangelho, e elevar-se a Deus. A quaresma oferece um ‘caminho’ de mudança, para uma maior comunhão com Deus e com os irmãos. O que impede a comunhão é o pecado. E por falar em pecados, todos já sabem que há pecados pessoais, que exigem o esforço pessoal para superação, e há pecados estruturais que exigem mudanças na sociedade, e não apenas nos indivíduos. “As estruturas de pecado são situações sociais ou instituições contrárias a? lei divina (Catecismo da Igreja Católica, n. 1869). Há estruturas, portanto, que precisam ser mudadas, e não apenas pessoas que precisam de conversão. Em certo sentido, diante de determinadas situações ou organizações estruturais, as pessoas podem ser simplesmente vítimas.

            “Por conseguinte, - dizia o Papa São João Paulo II, - devemos acentuar que um mundo dividido em blocos, mantidos por ideologias rígidas, onde, em lugar da interdependência e da solidariedade, dominam diferentes formas de imperialismo, não pode deixar de ser um mundo submetido a uma estrutura de pecado.  O conjunto dos fatores negativos, que agem em sentido contrário à verdadeira consciência do bem comum universal e à exigência de favorecer o bem comum, dá a impressão de criar, nas pessoas e nas instituições, um obstáculo difícil de superar... «Pecado» e «estruturas de pecado» são categorias que não se vê com frequência aplicadas à situação do mundo contemporâneo. E no entanto não se chegará facilmente à compreensão profunda da realidade, conforme ela se apresenta aos nossos olhos, sem dar um nome à raiz dos males que nos afligem” (Sollicitudo Rei Socialis, n. 36). Portanto, nem todos os pecados se reduzem ao âmbito da moral pessoal – como se tenta enfatizar nos dia de hoje por meio de agendas moralistas que manipulam habilmente a política e as escolhas da população.

            Diante dos males que afligem a sociedade e o Estado hoje, nós cristãos, à luz da CF, precisamos conhecer e agir diante das políticas públicas apresentadas pelos que detêm o poder.  Há aspectos que necessitam de mudanças imediatas, em prol da vida, da dignidade da pessoa humana e da democracia. Neste âmbito político e social encontram-se os maiores pecados da humanidade nos dia de hoje.

            Políticas públicas são ações do Estado, por meio dos governos, que visam melhorar e promover a vida das pessoas. O Estado não é uma entidade abstrata. É uma organização política que administra uma nação ou país soberano, a partir de uma lei máxima ou constituição escrita, que visa manter a coexistência pacífica dos indivíduos, proporcionando o bem estar de toda a sociedade. Infelizmente, o Estado, nem sempre está a serviço da população, mas é raptado a serviço de uma classe (Estado patrimonialista). Cada vez mais frequentemente isso acontece quando a liderança polícia não distingue, não faz diferença, ou confunde a esfera pública com a privada. Ambas as esferas tornam-se, muitas vezes, quase indistintas. A classe (que tem o poder) controla o mundo político, controla a mídia e as redes sociais, e, por isso é capaz de colocar o Estado  (os três poderes) ao seu serviço, em detrimento do bem comum, com o apoio da população que pensa por meio da mídia e de outros aparelhos ideológicos. A ideologia atinge o suprassumo da sua eficácia quando a mídia consegue fazer com que os pobres pensem que o problema do mundo são os outros pobres. Os outros pobres estragam o mundo. 

A doença da sociopatia,                  

            Como há pecados estruturais, e não apenas pessoais, há também vícios ou doenças sociais. Pode-se dizer, com Galimberti (Os vícios capitais e os novos vícios. São Paulo: Paulus, 2004), que os pecados capitais são manifestações psicopatológicas. Vão para além do mundo da moral pessoal. São como que doenças do espírito.

            Entre os vícios mais perniciosos, hoje, encontra-se o que chamamos de sociopatia. Galimberti apresenta os 7 vícios capitais tradicionais e acrescente outros 7 novos vícios que descrevem claramente o comportamento do ser humano. Os pecados tradicionais são ira, preguiça, inveja, soberba, avareza, gula e luxúria. Os novos vícios são a sociopatia, despudor, consumismo, conformismo, sexomania, denegação e culto do vazio. “A volúpia do shopping, a dependência da mercadoria, a mecanicidade do sexo relacionam-se com a dissolução da personalidade…. É preciso falar deles, ter ao menos consciência deles, para não assumi-los como valores da modernidade, pois, de fato, não passam de desastrosos inconvenientes”.

            “A sociopatia não é impulsionada por aquilo que comumente se entende por maldade. De fato, encontra-se absolutamente além do bem e do mal e é impulsionada a agir somente pela indiferença absoluta” (BLASK, F., Q come caos. Milano: La Feltrinelli, 1966. P. 14, apud, GALIMBERTI, op. Cit. p.   107). Esta doença psiquiátrica, que antes era uma particularidade de alguns, parece agora ser o modo de viver de muitos. Ela não nasce de um conflito, mas de uma puerilidade de fundo, uma imaturidade afetiva. Acontece cada vez mais de forma epidêmica porque falta educação emocional na família. As crianças vivem na solidão, suas baby-sitter são a televisão e videojogos. Possuem sensibilidade fraca, introvertida e indolente…, com fugas espasmódicas na procura da própria identidade, cada vez mais distante, devido a incapacidade de reencontrar raízes emotivas pessoais (GALIMBERTI, op. cit. p. 111).

            Daí a importância do grito profético da Igreja por meio da CF. É essencialmente cristão  construir a justiça social, por meio de políticas públicas e da educação. Sem isso, estaremos completamente perdidos. Não são suficientes boas intenções diante de uma sociedade doente, sem futuro, sem educação, sem saúde, sem juventude. A indiferença absoluta é fruto deste novo pecado capital chamado sociopatia, que não é mais uma patologia de alguns, mas parece ser o modo de viver de muitos…

Conclusão – Direito e Justiça como antídoto

            Com o profeta Isaías vivamos o lema da CF: “Serás libertado pelo direito e pela justiça (Is 1,27). O desespero e o desalento são paralisantes. Precisamos alimentar-nos espiritualmente com esperança profética. Reajamos com coragem. A quaresma desafia o despertar da consciência crítica. O futuro está nas nossas mãos e precisamos nos nutrir com a esperança que a Palavra de Deus suscita em quem crê. É tarefa de fé. Quem não crê em Deus, também não crê no ser humano, já se entregou à mentalidade mundana, e o desespero entra e toma conta. O desespero é paralisia total, é morte. Viver com esperança significa organizar grupos e construir comunidades. É o único modo de sermos cristãos e vivermos o Evangelho. Na atual conjuntura nacional e mundial, onde as perdas foram imensas, e continuarão a crescer, faz-se imprescindível a educação da consciência crítica. Só com consciência crítica, resistentes às manipulações da mídia, saberemos o que de fato está acontecendo no Brasil e no mundo. Consciência crítica e afastamento do pensamento comum são inescusáveis meios de  humanização. O povo não pode ser boi de matadouro. Reajamos aos vícios que afligem a sociedade de hoje, curemo-nos da sociopatia, iluminemos a realidade com o Evangelho e construamos uma sociedade que respeite a lei, o direito e a justiça. O Estado não é propriedade privada.

            Infelizmente, nesta tarefa, não podemos contar com o apoio e o trabalho das grandes massas. É uma tarefa profética, que se alimenta na Palavra de Deus. A mídia serve seus senhores. Nós queremos servir a Deus, e construir um novo modelo de sociedade, diferente da dominante. Isto exige mudanças radicais nos âmbitos públicos, isto é, nas concepções do trabalho, lazer, educação, cultura, impostos, etc.  Somente se tivermos consciência dos meios e mecanismos que nos rodeiam, poderemos interferir na realidade e preparar uma verdadeira Páscoa do Senhor… Já conhecemos a história: o povo (manipulado) simplesmente gritava: crucifica-o, crucifica-o. Políticas públicas e o bem comum nos pedem um novo agir, nos pedem conversão. Todos os cristãos são chamados a participar, enquanto há tempo.

            Dom Paulo Evaristo Arns, profeta da esperança, repetia: “A esperança subsiste e se torna força de resistência mesmo nas situações mais adversas”. Os exercícios quaresmais nos ajudarão a vencer os pecados capitais que tanto nos afligem, e viver a esperança, porque Cristo Ressuscitou.