Diocese de Novo Hamburgo

Vou fazer a escolha certa?

- Padre Ariel Luiz Bühler – Promotor Vocacional

Quando a pergunta sobre um possível caminho entra no coração, é natural ter dúvidas e sentir medo: Deus nos procura e nós, apesar da nossa fragilidade, desejamos viver com Ele e para Ele.

Os apóstolos ficaram pensativos depois de contemplar o encontro de Jesus com o jovem rico e o seu desenlace: o rapaz “foi embora cheio de tristeza, pois possuía muitos bens” ( Mt 19,22). Provavelmente, o olhar de Jesus, não triste, mas dolorido, os desconcerta: “dificilmente uma pessoa rica entrará no reino dos céus”. Pedro, como em outras ocasiões, torna-se porta-voz do sentimento comum: “Deixamos tudo e te seguimos, o que será de nós? ”.

O começo de uma vocação, como o começo de qualquer caminho, geralmente traz consigo uma dose de incerteza. Quando Deus permite que sintamos uma inquietação no coração, e um possível caminho concreto começa a se delinear, é natural perguntar: será que é por aqui?

O que há por trás dessa dúvida? De entrada, um temor bastante normal. Medo da vida e das nossas próprias decisões: não sabemos o que acontecerá no futuro, para onde esse caminho nos levará, porque nunca o percorremos antes. A dúvida também se explica por nosso desejo de acertar: queremos que nossa vida seja valiosa, que deixe um rastro. Além disso, coisas grandes e belas exigem o melhor de nós e não queremos nos apressar. Mas a razão mais profunda é mais misteriosa e simples ao mesmo tempo: Deus que nos procura e nós que queremos viver com Ele. Geralmente não é Deus que nos assusta, mas nós mesmos. Inquieta-nos a nossa fragilidade diante de tão imenso amor: achamos que não conseguiremos estar à Sua altura.

Quando Pedro pergunta a Jesus “o que será de nós”? Quando um cristão pergunta a Jesus “o que será de mim” se eu seguir esse caminho, o que é que Cristo responde? Olhando para o coração, Jesus nos diz, com uma voz cheia de carinho e alegria, que cada um de nós é uma aposta de Deus, e que Deus nunca perde os seus lances. Viver significa aventura, risco, limitações, desafios, esforço, sair do pequeno mundo que controlamos e encontrar a beleza de dedicar nossas vidas a algo maior do que nós e que preenche a nossa sede de felicidade. Podemos imaginar o olhar esperançoso de Jesus ao pronunciar aquelas palavras que ressoaram e continuarão a ressoar em muitos corações: “E todo aquele que tiver deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos ou campos, por causa do meu nome, receberá cem vezes mais e terá como herança a vida eterna” (Mt 19,29). Deus só dá de maneira exagerada, magnânima.

Contudo, não se trata de esperar uma revelação deslumbrante, ou um plano traçado até o último detalhe. Deus pensou em nós, mas também conta com a nossa iniciativa. “Quando uma pessoa se encontra diante da incerteza da existência de uma peculiar chamada de Deus, é sem dúvida necessário pedir ao Espírito Santo 'luz para ver' sua própria vocação. Mas se a mesma pessoa e aqueles que hão de intervir no discernimento vocacional (direção espiritual, etc.) não veem nenhum dado objetivo contrário e a Providência (...) conduziu de fato a pessoa a essa experiência, além de continuar a pedir a Deus 'luz para ver', é importante pedir-Lhe 'força para querer', de modo que com essa força que eleva a liberdade no tempo se configure a mesma vocação eterna”

 

Cabe a nós considerar tudo o que somos e valemos, para poder oferecer tudo, como explica a parábola dos talentos ( Mt 25,14-30) e não ficarmos com nada sem negociar, sem compartilhar. Esta é a chave para uma decisão madura e sincera: a disposição de entregar-se completamente, de abandonar-se totalmente nas mãos de Deus, sem reservar nada, e a constatação de que esta entrega nos enche de uma paz e de uma alegria que não vêm de nós mesmos. Dessa forma, a profunda convicção de termos encontrado nosso caminho pode criar raízes.

No momento de discernir sua vocação, “Maria, então, perguntou ao anjo: 'Como acontecerá isso, se eu não conheço homem?”( Lc 1,34). O anjo é o mensageiro, o mediador que chama, seguindo a voz de Deus. Maria não coloca nenhuma condição, mas – isso sim –, pergunta para acertar. E o anjo lhe assegura: quem o fará será o Espírito Santo, porque isso supera você, mas “para Deus nada é impossível” (v. 37). Se até mesmo Maria, nossa Mãe, pergunta, é lógico que cada cristão peça conselho aos outros diante do movimento interior do amor de Deus: como devo fazer para entregar-Lhe a minha vida? Qual o caminho certo para a minha felicidade? Que maravilhoso é deixar-se aconselhar para poder dizer que sim, com uma liberdade radiante e cheios de confiança em Deus, para colocar tudo o que é nosso em suas mãos: “faça-se em mim segundo a tua palavra”.