Diocese de Novo Hamburgo

E A FAMÍLIA COMO VAI? - PARTE 2

- Pe. Felipe Konzen

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A REALIDADE, OS DESAFIOS DAS FAMÍLIAS E O CONHECIMENTO DA DOUTRINA SOBRE O MATRIMÔNIO - PARTE 2

 

         b) Papa Francisco

 

            O que Dom Boaventura descreveu em seu artigo Conheçamos nossa doutrina familiar, a análise da situação familiar em sua época e o caminho pastoral a seguir, Papa Francisco descreve na Exortação Pós-Sinodal Amoris Laetitia, sobretudo nos capítulos II e III.

            No capítulo II do citado documento, o Pontífice volta sua atenção sobre a realidade e os desafios das famílias e em sua primeira parte descreve a situação familiar atual, destacando vários pontos que são, na sua maioria, desdobramentos daquilo que ele denomina como uma mudança antropológico-cultural. Os principais pontos dessa mudança seriam: o individualismo exagerado, a cultura do provisório, a afetividade narcisista, o enfraquecimento da fé, o problema demográfico, a falta de políticas familiares, as famílias em situação de miséria e as famílias com pessoas com deficiência. Nas presentes linhas descreveremos quatro aspectos que englobam e elucidam a visão do Sínodo sobre o tema.   

            Em primeiro lugar, Papa Francisco destaca aquilo que, segundo ele, é o ponto central para a compreensão da família nos tempos hodiernos, a mudança antropológico-cultural. Em sua visão, tal mudança surge como consequência de uma mudança primeira, aquela que ocorre na estrutura das relações familiares. Citando os bispos espanhóis, afirma:

 

Estamos cientes da orientação principal das mudanças antropológico-culturais, em virtude das quais os indivíduos são menos apoiados do que no passado pelas estruturas sociais na sua vida afetiva e familiar.

 

            A lógica de tal transformação parece simples: a família, entendida como célula primeira da sociedade e lugar primeiro de desenvolvimento pessoal, ao enfraquecer suas estruturas relacionais enfraquece, como consequência, as relações sociais como um todo. Tal realidade afeta os indivíduos que, em decorrência da debilidade de tais estruturas, acabam por ter dificuldade de desenvolverem sua auto-compreensão e sua personalidade. 

            Com a perda da estrutura familiar destaca-se a primeira mudança antropológico-cultural, o surgimento de um individualismo e de um narcisismo cada vez mais presentes na sociedade. Uma vez que as relações naturais pertencentes à vida em família desaparecem, ou não são mais estáveis, o sujeito passa a ter maior dificuldade para reconhecer-se pertencente a uma comunidade, de reconhecer-se grato por tantos dons recebidos, por reconhecer-se gerado e sustentado por relações inter-pessoais, vivendo assim da ilusão de se bastar a si mesmo e fazendo prevalecer, como afirma o Papa, a ideia de um sujeito que se constrói segundo os seus próprios desejos assumidos como caráter absoluto. Tal realidade acaba por abrir caminho ao desenvolvimento de um universo afetivo que desconhece o respeito e o limite em relação ao outro e que, ao fim, dificulta a vivência madura da afetividade.

            Um segundo aspecto da situação atual das famílias é a cultura do provisório. O Santo Padre entende tal realidade sobretudo no que diz respeito a instabilidade existente nas relações afetivas e, como exemplo, utiliza a metáfora do universo digital, quando diz que as pessoas creem que o amor, como acontece nas redes sociais, possa ser conectado ou desconectado ao gosto do consumidor e, inclusive, bloqueado rapidamente. Segundo Francisco, o provisório é consequência da mentalidade do descartável. A forma com que as pessoas se relacionam com os objetos, ou seja, o uso e o descarte, o aproveitar-se de algo e depois jogar fora, é transportado para as relações interpessoais onde a pessoa é reduzida a uma coisa. Pode-se dizer que a mentalidade do provisório tem como consequência última a incapacidade de fazer com que se compreenda que, quando nos relacionamos com as pessoas, não nos relacionamos com algo, uma coisa qualquer, mas sempre com alguém, uma pessoa com valores e dignidade que não pode ser reduzida a uma satisfação momentânea ou a uma utilidade temporal.        

            O terceiro ponto que destacaremos é aquele que, como consequência da mudança antropológico-cultural, conduz ao enfraquecimento da fé e da prática religiosa. Francisco afirma que uma das maiores pobrezas da cultura atual é a solidão, fruto da ausência de Deus na vida das pessoas e da fragilidade das relações. Em certo sentido o Papa afirma que a vida em Deus é a fonte original de todas as outras relações e que a compreensão desse ligame fundamental faz com que experimentemos e descubramos, na vivência das relações familiares, a relação com o Deus Uno e Trino que é comunhão e onde não há espaço para a solidão e para o individualismo, mas sim para o amor de uns para com outros.

            O quarto e último ponto que destacaremos é o que compreende a falta de políticas familiares que possam auxiliar as famílias para que com mais facilidade econômica possam gerar e educar seus filhos. Tal aspecto pode ser sintetizado, a partir de Amoris Laetitia, na seguinte afirmação papal: A família é um bem de que a sociedade não pode prescindir, mas precisa ser protegida. A defesa destes direitos é um apelo profético a favor da instituição familiar, que deve ser respeitada e defendidas contra toda a agressão, sobretudo no contexto atual em que, habitualmente, ocupa pouco espaço nos projetos políticos. As famílias têm, entre outros direitos, o de poder contar com uma adequada política familiar por parte das autoridades públicas no campo jurídico, econômico, social e fiscal. Dessa forma, o Santo Padre recorda que qualquer desenvolvimento social deve levar em consideração o cuidado para com as famílias, bem maior de qualquer sociedade.

            Compreendida a visão do Papa Francisco sobre a realidade das famílias em nossos tempos,  no capítulo III de Amoris Laetitia, o Romano Pontífice discorre sobre a vocação da família e recorda entre outros pontos dois lugares necessários para a compreensão doutrinal acerca do tema familiar: a Sagrada Escritura e os documentos magisteriais.

            Através das Sagradas Escrituras, sobretudo à luz do Novo Testemunho, o Papa recorda que é possível entender que Jesus recupera e realiza plenamente o projeto divino acerca da família em dois pontos: O primeiro ponto, quando afirma que é no amor do Cristo pela Igreja que se manifesta, através da fidelidade e da indissolubilidade de tal relação, o modelo do amor esponsal para os esposos cristãos, os quais poderão viver, de tal forma, o matrimônio como verdadeiro dom do Senhor. A aliança esponsal, inaugurada na criação e revelada na história da salvação, recebe a revelação  plena do seu significado em Cristo e na sua Igreja. O segundo ponto, entende-se pelo fato de Jesus ter sido um homem de família, na sua vida pública o Senhor estreitava amizade com muitas famílias, como o exemplo daquela de Betânia na casa de Lázaro e suas irmãs. Mas revela a importância da vivência familiar, sobretudo, por ter se encarnado e vivido em Nazaré, com Maria e José no coração de um lar. 

            O segundo lugar de compreensão da riqueza doutrinal sobre a família é apresentado pelo Santo Padre, nos documentos magisteriais que, a partir do Concilio Vaticano II, servem como referência para uma correta interpretação por parte da Igreja sobre o tema. Inicia-se com Gaudium et Spes, documento conciliar que define o matrimônio como comunidade de vida e de amor. Depois são apresentas duas importantes encíclicas do Papa São Paulo VI, Humanae Vitae que destaca o vinculo do amor conjugal e da geração da vida e Evangelii Nuntiandi que evidencia a estreita relação entre família e Igreja. Ao falar de São João Paulo II, o Papa das famílias, o destaque é para a Carta às famílias Gratissiman Sane e sobretudo para a Exortação Pós-Sinodal Familiaris Consortio que definem a família como caminho da Igreja para nossos tempos! Ao final o Papa Francisco destaca o magistério de Bento XVI e cita duas de suas encíclicas, Deus Caritas est e Caritas in Veritate, com ênfase a visão do matrimônio como ícone do relacionamento de Deus com o seu povo e vice-versa. 

 

Pe. Felipe Konzen

Sacerdote da Diocese de Novo Hamburgo