Diocese de Novo Hamburgo

E A FAMÍLIA COMO VAI? -PARTE 1

- Pe. Felipe Konzen

25 anos depois, um diálogo pastoral entre Dom Boaventura Kloppenburg e Papa Francisco ( I )

 

           

            Nesse ano a Comissão Nacional da Pastoral Familiar recorda os 25 anos da Campanha da Fraternidade que propunha, através da pergunta, “A Família como vai?” uma reflexão sobre a situação das famílias no Brasil. Na época da referida Campanha era bispo da diocese de Novo Hamburgo Dom Boaventura Kloppenburg, que como pastor atento e exímio teólogo que era, buscou refletir com seu rebanho sobre a temática familiar através de alguns artigos por ele publicados. Sempre presente na atenção pastoral da Igreja, a realidade das famílias não poderia passar desapercebida pelo coração do Papa Francisco, que, de fato, convocou, três anos atrás um Sínodo para discutir esse assunto. O que aqui descreveremos, portanto, será uma análise de alguns dos escritos de Dom Boaventura relacionados ao tema da família no ano de 1994 e as considerações atuais do Magistério da Igreja presentes na Exortação Pós-Sinodal Amoris Laetitia, a fim de oportunizar, seja através do patrimônio magisterial diocesano, seja através da Igreja Universal, uma melhor preparação em vista da Semana Nacional das Famílias.

 

 

1. A REALIDADE, OS DESAFIOS DAS FAMÍLIAS E O CONHECIMENTO DA DOUTRINA SOBRE O MATRIMÔNIO.

 

         a) Dom Boaventura

           

Dom Boaventura, ao completar 75 anos, por ocasião da apresentação de sua renúncia como bispo diocesano, deixou, como presente à diocese de Novo Hamburgo, um pequeno livro intitulado: Fidelidade entre sombras, orientações pastorais. Trata-se de uma coletânea de artigos onde é possível “ler” seu coração de Pastor, suas preocupações para com a parcela do Povo de Deus a ele confiado e seu profundo senso de comunhão com o Magistério da Igreja.

            No capítulo V da obra, encontramos oito textos referentes à temática familiar. Os quatro primeiros artigos são escritos no contexto do ano de 1994, mundialmente dedicado às famílias. São eles: Conheçamos nossa doutrina matrimonial; o fundamento da família; missão da família e cultura da morte. Nas presentes linhas nos dedicaremos a análise do primeiro artigo, Conheçamos nossa doutrina matrimonial.

            Dom Boaventura, através de duas características pessoais, a de pastor e a de teólogo, nos apresenta, no supracitado artigo, uma dupla visão que deve estar sempre presente na vida da Igreja, a doutrinal e a pastoral. De fato, a sua reflexão inicia a partir de um dado que, certamente, inquietava seu coração de pastor, alguns anos antes, possivelmente aqueles em que na diocese de Novo Hamburgo fora realizado o Sínodo diocesano de 1990, em que foi constatado um problema epocal descrito por ele da seguinte forma: 

 

"Quase a metade dos pais que solicitam o batismo para seus filhos vivem em situação matrimonial irregular: ou não são casados na Igreja, ou no civil, ou (e é a maioria) simplesmente vivem juntos sem nenhuma aliança matrimonial formal."

 

            O fenômeno dos matrimônios irregulares, realidade não só diocesana, mas mundial, necessitava de uma resposta que, em primeiro lugar, levasse em consideração o seu problema de fundo, aquele que originava todas as outras crises familiares. Dom Boaventura desvela a raiz do mal por ele diagnosticado quando afirma: Observe-se, porém, que o mal não está nas variadas crises da vida matrimonial já estabelecidas (situações que também pedem nossa atenção pastoral), mas no próprio início deste estado de vida. Parece que se nega simplesmente o casamento como contrato. Ou ao menos não se reconhece sua utilidade. Acontece, então, o ajuntamento sem nenhum tipo de aliança formal. É esta a situação para a qual devemos buscar remédio.   

            A sua atenção e os seus esforços de pastor voltam-se, portanto, para o problema do não reconhecimento da aliança formal ou da negação do casamento como contrato. Como veremos adiante, ao analisarmos outros de seus artigos, o que o inquietava não era a falta do formalismo contratual do matrimônio, mas sim a perda do seu patrimônio sacramental, espiritual, relacional e social, de modo que aquela geração, muitas vezes, por não compreender tal riqueza, deixava de se enriquecer com ela, preferindo a construção de relações “livres”, baseadas, não na estabilidade do pacto conjugal, mas na instabilidade de sentimentos e em improvisos.

            Segundo Boaventura, a solução para tal problema não estava em uma simples análise ou, então, apenas na acusação acerca da equivocada opção feita por tantos jovens católicos em não edificar suas famílias tendo como base a aliança matrimonial. A atitude mais adequada descrita pelo bispo seria a seguinte: Temos o dever pastoral de motivá-la (a juventude) a fim de entender a natureza e a utilidade da aliança matrimonial cristã. Trata-se, portanto, de um caminho propositivo e educacional. É preciso uma motivação baseada na apresentação clara do que é o matrimônio católico, qual seu significado, sua importância, sua beleza. Dessa forma, Dom Boaventura parecia entender que o motivo de base para o mal das relações informais e irregulares estava na falta de um adequado conhecimento do que seja o matrimônio, pois ao final não se tratava tanto de uma negação do matrimônio e da família, porque de fato homens e mulheres continuavam a estar juntos e a ter filhos, o problema estava na falta de conhecimento que os motivasse a escolha sacramental.

            Para que os jovens pudessem conhecer e aderir ao sacramento do matrimônio, Dom Boaventura afirmara: Para isso, deve a própria comunidade católica, sobretudo os pais desses jovens, conhecer mais claramente a doutrina matrimonial da Igreja. Compreende-se, portanto, que a responsabilidade de transmitir a riqueza cristã aos membros jovens da Igreja é eclesial com ênfase direcionada aos pais, que, tendo assumido diante de Deus o compromisso de educarem seus filhos na Lei de Cristo e da Igreja, vivem, na juventude desses, a oportunidade concreta de ensinar-lhes os valores da fé relacionados especificamente à vocação matrimonial e familiar.

            Dom Boaventura era cônscio de que, por vezes, o testemunho, sempre fundamental, não é o bastante. É necessário também saber dar razões da nossa esperança (Cf 1 Pd 3,15), sobretudo em um período, já naquela época, em que a confusão acerca da doutrina e dos valores matrimonias era tão difusa. Como lugar seguro para o conhecimento doutrinal, o então bispo de Novo Hamburgo apresentara três documentos magisteriais que, tratando do tema familiar, possuem igualmente a capacidade de portar as riquezas doutrinais da Igreja em linguagem atual, seriam: O documento conciliar Gaudium et spes, a Exortação Pós-Sinodal Familiaris Consortio e o Código de Direito Canônico, sobretudo na parte que diz respeito ao sacramento do matrimônio.

            Por fim, Dom Boaventura tinha clareza de que os leigos, sobretudo os pais e os membros da Pastoral Familiar, deveriam ser ajudados nesse estudo pelos pastores que possuem o múnus de ensinar, por isso insistia na atualização por parte dos sacerdotes com relação à doutrina católica e recordava, ao final, a oportuna exortação do então Papa João Paulo II aos bispos brasileiros: Em cada diocese, vasta ou pequena, dotada de clero ou não, o bispo estará agindo com sabedoria pastoral, estará fazendo um ‘investimento’ altamente compensador, estará construindo, a médio prazo, sua Igreja particular, na medida em que der o máximo apoio a uma pastoral familiar efetiva. 

Pe. Felipe Konzen

Sacerdote da Diocese de Novo Hamburgo

 

Na próxima semana, publicaremos a segunda parte deste primeiro artigo de estudo. Acompanhe em nosso site e redes sociais.