jurema1A história que será conhecida aqui revela a história de muitas outras “Mulheres Terra”.
Jurema Justo Mengue sentiu na pele, como muitas outras mulheres de sua geração, como era viver em uma época de opressão aos direitos femininos. Hoje aos 62 anos, representa tantas outras mulheres que, pouco a pouco, tornaram-se importantes lideranças na causa feminina no litoral.
 
Da comunidade de Morro Azul, em Três Cachoeiras, é participante ativa do Movimento das Mulheres Camponesas (MMC) desde os anos 1980, em busca de direitos sociais, pela visibilidade da mulher do campo na sociedade e pelas questões de meio ambiente.
Contudo, nem sempre foi assim. Filha de agricultores e criada num ambiente machista, Jurema estudou só até a quinta série do Ensino Fundamental. Ela se recorda de que o pai não a permitiu continuar os estudos, na época em Torres, pois considerava que “filha mulher não saía de casa”.
No casamento também não foi muito diferente. Casada desde os 18 anos, Jurema foi convidada para o Clube de Mães da comunidade e só pôde participar dos encontros porque a tia do marido intercedeu. – Agradeço ao Clube de Mães até hoje, por ser a minha primeira saída de casa, onde pude conhecer o movimento e o início das lutas sociais. Mas fui vendo que o clube era muito pouco e que a missão evangelizadora não era só dentro da igreja, era lá fora também –  completa.
Apesar da opressão de uma sociedade machista, que se refletia na postura dos homens da família, Jurema foi subvertendo a lógica da mulher submissa. Aos poucos, impôs a saída de casa para atuar no movimento. – Hoje me sinto uma mulher liberta, de dizer que estou saindo e não sei que horas vou voltar. Nós aprendemos enfrentando conflitos, mas conseguimos dar a volta – , lembra-se com um sorriso no rosto.
Empoderamento e conquistas em mais de 30 anos de movimento
Das conquistas em mais de 30 anos no movimento, Jurema participou de mobilizações pelo direito à saúde e por melhores condições de trabalho às mulheres. Ainda fez parte dos grupos de base que fomentaram cursos de formação em diversos temas, incluindo sobre plantas medicinais. Além disso, auxiliou na elaboração de diversos projetos ligados às causas sociais e ambientais e também na conquista de uma sede própria para o MMC no litoral, localizada em Três Cachoeiras, onde ocorrem cursos gratuitos e encontros.
Além de todas as lutas, inclusive a aceitação do marido de que participasse do movimento, outra conquista que Jurema tem satisfação foi de levar a filha mais nova Rute, ainda criança, nas manifestações e encontros do grupo. Para ela, foi um legado que a filha tivesse a oportunidade de aprender sobre ser mulher e se empoderar na sociedade. – Na adolescência, as atitudes dela eram tão fortes como feminista que até me assustavam. Às vezes, pedia para ela maneirar. Mas ela dizia que tinha aprendido comigo a ser assim, que me via como a borboleta tentando sair do casulo – conta a mãe com orgulho.
Para Jurema, no entanto, não há arrependimentos das batalhas e conquistas que teve ao longo dos anos ao lado das companheiras do movimento. "Acho que foi uma faculdade da vida, mesmo com uma formação só até a quinta série. Em toda essa trajetória me sinto realizada”.
Por isso, para ela, discutir as dificuldades e as realidades das mulheres durante a 41ª Romaria da Terra do Rio Grande do Sul é fundamental. – É um tema que veio para ajudar a fazer o debate e para que as mulheres realmente possam se empoderar. Na nossa formação, acho que isso assusta muito os homens. Mas só podemos diminuir o machismo com o debate, vivendo e conhecendo outras realidades –, analisa.
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Fotos: Anelise Durlo / A serviço da Diocese de Osório